Sexta-feira, 4 de Abril de 2008

souselalentejo( Cantico Negro de José Regio)

E porque a própria vida é um poema, decidi por em post com som, um dos poemas mais dinamizantes da poesia Portuguesa. Um poema de José Régio bem  declamado por João Villaret, que cada um de nós poderá interpretar como bem entender.

 

Cântico negro

 

"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!                                         

                                                                              

 

José Régio, pseudônimo literário de José Maria dos Reis Pereira, nasceu em Vila do Conde em 1901. Licenciado em Letras em Coimbra, ensinou durante mais de 30 anos no Liceu de Portalegre. Foi um dos fundadores da revista "Presença", e o seu principal animador. Romancista, dramaturgo, ensaísta e crítico, foi, no entanto, como poeta. que primeiramente se impôs e a mais larga audiência depois atingiu. Com o livro de estréia — "Poemas de Deus e do Diabo" (1925) — apresentou quase todo o elenco dos temas que viria a desenvolver nas obras posteriores: os conflitos entre Deus e o Homem, o espírito e a carne, o indivíduo e a sociedade, a consciência da frustração de todo o amor humano, o orgulhoso recurso à solidão, a problemática da sinceridade e do logro perante os outros e perante a si mesmos.

                                                                         


PUBLICADO POR: carlosgil às 20:08
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4 comentários:
De Maria José Ludovino a 22 de Abril de 2008 às 21:38
Boa noite!
Olha escrevi uma coisa que acho que tem um pouco a ver com o privilégio de estarmos vivos e que muitas vezes nem percebemos que afinal somos todos priviligiados porque nascemos e podemos usufruir a melhor coisa que nos foi dada: a vida!

***********************************

Ser privilegiado…

Somos privilegiados porque estamos vivos…

Ser privilegiado é poder olhar o sol,
sentir o seu calor…
Deixar entrar o quente no
nosso coração!

Ser privilegiado é observar
o formato da lua,
poder olhar os seus contornos,
adivinhar seus mistérios…

Ser privilegiado é sair e ir à praia,
Com a companhia de um livro,
Ouvir música e espairecer…
Tendo por cenário um céu azul,

Ser privilegiado é poder
fazer desenhos no céu,
nas nuvens fofas aqui e acolá…
Inventar formas e loucuras…

Ser privilegiado é correr,
rodopiar…
Sentir o vento nos cabelos,
estremecer com o arrepio…

Ser privilegiado é poder saborear
aqueles morangos com chantily,
Um bombom doce, chupar os dedos…
Borbulhar num champanhe…

Ser privilegiado é ter um alguém,
distante que seja ou inventado….
Ter um amigo, único que seja,
para conversar e palhaçar…


Ser privilegiado é poder escolher!
Saber o que gostamos,
o que não gostamos,
amamos ou odiamos…

Ser privilegiado é poder sorrir,
chorar, gritar e aparvalhar…
Poder ter o silêncio, se quisermos,
por companhia…

Ser privilegiado é ser livre,
exercer esse direito,
poder ser ou não ser,
poder viver ou morrer…

Ser privilegiado…
És tu, sou eu…
Somos nós…
Todos somos privilegiados…


Maria José Ludovino
21 de Abril de 2008


De Ana Rosa Gil a 10 de Abril de 2008 às 21:13
Este Poema de José Régio é para mim um dos mais bonitos poemas portugueses feitos até hoje, adoro este poema que nos fala do caminho que realmente devemos tomar e esse caminho será sempre o da justiça verdadeira e liberdade de pensamento, eu tive contacto com este poema quando em Sousel existia o Centro Cultural de Sousel, ou seja quando existia ainda algo a sério para fazer sobre a nossa CULTURA e sobre os nossos grandes Poetas Portugueses, um grupo de adolescentes que graças ao empenho das Professoras D. Joana Emília, D. Maria Felisberta e também de um Senhor de seu nome Emílio Sabido, fazíamos teatro amador e onde declamava-mos muita poesia e esta foi uma das que mais me marcou, pois eu tinha apenas 16 anos graças ás duas Senhoras e também ao Emílio que já referi, muito cedo comecei eu e os meus colegas a tomar conhecimento de grandes poetas como: José Régio, Thiago de Melo (Brasileiro), Ary dos Santos, a nossa sempre querida e amada Florbela Espanca, etc , etc ...Foram momentos muito felizes da minha adolescência que jamais irei esquecer pela vida fora! Para os três o meu muito obrigado por terem contribuído para o meu "crescimento" enquanto Pessoa que ama acima de tudo a Verdadeira Cultura, OBRIGADO!


De Maria José Ludovino a 5 de Abril de 2008 às 01:10
Sou talvez...

Sou talvez a visão que,
alguém sonha,
alguém que veio ao mundo
para me ver...
E que nunca na vida,
me encontrou!...Eu... - Florbela Espanca"

Analisando este excerto:
Sou talvez um alguém,
gente que fui sonhada,
projectada...
Sou talvez ...
Sou talvez um alguém distante...
Perdido...
Sou talvez o inantigível,
aquilo que jamais serei...
Sou a sombra da
minha alma,
algo que tinha coração!
Sou a transparência do ar...
A pureza d' água...
Sou a força do mar...
Aquele que dava força,
espumava...
Sou o que sou...
Já não consigo mudar,
já não consigo sonhar...
O que muda foi a vida,
o que sonho,
é o falhanço...
Sou um projecto
inacabado,
interrompido,
deixando no canto,
canto da amargura,
vazio...
Sou...
Já não sou...
Só sei que nada sou...

4 de Abril de 2008
Maria José Ludovino


De haja cultura a 8 de Abril de 2008 às 00:28
Um bom poema este de José Régio. SE NA ALTURA DA SENSURA NÃO O ENTENDERAM, COMO O HADEM ENTENDER AGORA GIL? REALMENTE DIZES MUITO EM TÃO POUCA COISA. PENA NÃO PERCEBEREM.
Haja cultura


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