Sexta-feira, 12 de Novembro de 2010

souselalentejo ( Rubrica semanal de Ana Teresa Pina)

No café…

 

Hoje, fui ao café a uma hora que não seria cedo nem tarde, mas da parte da manhã. Para mim iria ser o café do despertar e o meu dia estava a começar, outros já iam a meio do dia de trabalho, outros ainda não tinham começado e ainda havia quem não tivesse nada para começar…

Apesar destes vários tipos de pessoas, não eramos muitos…

Entrei para não me demorar. Entrei e a conversa, comum a todos os clientes, estava pesada. Era séria. Falava-se de doenças e de morte, de dor, de sofrimento, de esperanças e ilusões ou da falta delas.

O café não me soube ao de sempre, tinha um travo amargo que não cheguei a compreender de onde vinha, se da chávena ou da conversa.

Tentei aliviar a conversa mas não deixaram.

Não era hora para brincar, era a hora de falar do que se estava a falar.

Acabei por me render, não bebi o café e saí como tinha pensado fazer. Bebi o café e fiquei, fiquei a ouvir, histórias tristes mas necessárias, que servem para nos alertar para o facto da vida ser menos que nada… embora lá caiba muito.

De repente tive uma sensação de algo que me parecia familiar, senti-me em casa sabendo que não estava, fui transportada para muitos anos atrás, quando ainda olhava para uma vila cheia de vida e que me parecia imortal.

Fui levada ao tempo das minhas referências de criança, a um espaço onde me sentia segura e sem dúvida sentia que era meu.

Há muitos anos escrevi um pequeno texto a que chamei “num café algures”, relendo hoje o que escrevi na altura, notei a diferença…

Num café algures

E apareço eu,

Algures num café branco,

Algures com vozes desconhecidas,

Que nada dizem no seu barulho,

Mas que falam na sua surdez,

Fala-se sem saber porquê.

E apareço eu,

Algures num café cheio,

Algures tão perdida e tão vazia,

Apareço sem saber nada,

Sem sentir coisa alguma,

Sem me apetecer falar,

Com vontade de gritar, de explodir,

E apareço eu,

Tão branca e tão fria,

Tanto para dar,

Mas nada de novo para dizer,

Paciência eterna,

Mas palavras para quê,

Quando apareço eu.

 

Estar “num café algures” não é o mesmo que estar “neste café”, não tem o mesmo sabor, está longe de ter a mesma intensidade, este, o meu, onde fui hoje e onde não me deixaram brincar, tem calor, tem ambiente, tem pessoas que têm alguma coisa para dizer a quem esteja disposto a ouvir, neste café ainda se contam histórias, ainda se partilham experiências, ainda se fala alto para que todos possam ouvir, ainda é permitido dar a nossa opinião sem ninguém a ter pedido.

Ainda é um lugar de encontros, é um porto seguro onde sabemos que temos sempre alguém à nossa espera, é um lugar de desabafos, de brigas e de risos, de falar por falar e de dizer coisas sérias…

 

 

 

Bom fim-de-semana


PUBLICADO POR: carlosgil às 19:51
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1 comentário:
De @mota@ a 12 de Novembro de 2010 às 20:07
Como se diz no face: "GOSTO"


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